Quando as aparências enganam

Na sociedade atual, a imagem fala alto — quase grita.

O que é bonito atrai. O que é popular, conquista. O que a maioria das pessoas fazem raramente é questionado.

Mas existe um problema nisso.

Nem tudo que brilha é uma estrela.

E nem tudo que parece espiritual aproxima o ser humano de Deus.

Quando ouvimos a palavra idolatria, é comum imaginarmos uma pessoa ajoelhada diante de uma imagem ou de uma estátua. Talvez até pensemos em templos antigos, povos pagãos ou rituais muito distantes da nossa realidade.

E justamente aí podemos cometer um erro.

A idolatria não desapareceu.

Ela apenas aprendeu a se esconder melhor.


Idolatria é muito mais do que uma imagem

A Bíblia é muito clara ao condenar a idolatria.

O problema é que, muitas vezes, reduzimos seu significado a objetos religiosos e deixamos de perceber outras formas de devoção que podem ocupar o mesmo espaço dentro de nós.

Idolatria não é apenas dobrar os joelhos diante de um objeto.

É dobrar o coração diante de qualquer coisa que toma o lugar de Deus em nossa vida.

Essa diferença muda completamente a conversa.

Porque, se idolatria fosse apenas uma questão de estátuas, seria relativamente fácil identificá-la.

Mas e quando o ídolo não está sobre um altar?

E quando está no bolso?

Na estante?

Na garagem?

No celular?

No estádio?

Ou até diante do espelho?

A idolatria moderna pode ser muito mais sofisticada.

Ela não precisa ter aparência religiosa.

Pode usar terno.

Pode vestir uma camisa de futebol.

Ter cheiro de flor.

Ter cara de bichinho de estimação.

Pode aparecer na forma de dinheiro, reconhecimento, ideologia, relacionamento, carreira, conforto ou desejo.

E talvez seja justamente por parecer tão normal que se torne tão perigosa.


O problema não está necessariamente na coisa

É importante fazer uma distinção.

Possuir alguma coisa não significa idolatrá-la.

Gostar de futebol não é idolatria.

Ter dinheiro não é idolatria.

Amar uma pessoa não é idolatria.

Cuidar de um animal não é idolatria.

O problema começa quando aquilo que deveria ocupar um espaço limitado em nossa vida começa a reivindicar um lugar que pertence somente a Deus.

A pergunta deixa de ser:

“Isso é errado?”

E passa a ser:

“Que lugar isso ocupa dentro de mim?”

Há pessoas que não conseguem imaginar a própria vida sem determinado bem material.

Outras constroem toda a identidade em torno de um time, de uma profissão ou de uma pessoa.

Há quem aceite qualquer comportamento de alguém que admira, simplesmente porque transformou essa pessoa em referência absoluta.

Existem também aqueles que conhecem determinado ensinamento bíblico, mas preferem ignorá-lo porque ele entra em conflito com algo que desejam preservar.

É aí que o coração começa a revelar suas prioridades.

Jesus disse:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”

Mateus 6:21

Nosso tesouro nem sempre está guardado em um cofre.

Às vezes ele está em uma pessoa.

Em um projeto.

Um objeto.

Possui tela.

Ou em nós mesmos.


Algumas coisas parecem inocentes

Uma das características mais perigosas da idolatria é sua capacidade de assumir aparência de normalidade.

Existem práticas que foram repetidas por tanto tempo que quase ninguém mais pergunta de onde vieram, o que representam ou se estão de acordo com aquilo que a Bíblia ensina.

O raciocínio costuma ser simples:

“Todo mundo faz.”

“Sempre foi assim.”

“Não vejo problema.”

“É apenas uma tradição.”

“Deus conhece meu coração.”

Algumas dessas frases podem até ser sinceras.

Mas sinceridade, sozinha, não transforma erro em verdade.

O cristão não deveria construir sua fé apenas sobre aquilo que aprendeu com a família, com a cultura ou até com determinada tradição religiosa.

Nossa referência precisa continuar sendo a Palavra de Deus.

Porque existe uma pergunta que precisamos ter coragem de fazer:

E se aquilo que sempre considerei normal não concordar com as Escrituras?

Essa pergunta incomoda.

Mas uma fé que nunca é examinada arrisca se transformar apenas em costume.


O coração humano cria ídolos com facilidade

Talvez pensemos que o maior perigo esteja em objetos externos.

Nem sempre.

Um dos maiores fabricantes de ídolos pode estar dentro de nós.

O próprio coração.

Podemos transformar desejos em necessidades absolutas.

Transformar admiração em devoção, carinho em dependência.

Podemos transformar opiniões em verdades incontestáveis.

Até transformar nossas próprias vontades em autoridade acima da vontade de Deus.

É por isso que a idolatria também pode aparecer diante do espelho.

Existe uma forma de viver em que Deus continua sendo mencionado, mas já não ocupa o centro.

A pessoa ora, mas somente para que Deus aprove seus planos.

Lê a Bíblia, mas seleciona apenas aquilo que confirma o que já deseja.

Busca orientação, porém rejeita qualquer resposta que contrarie sua vontade.

Nesse ponto, talvez Deus ainda esteja presente no vocabulário.

Mas quem realmente ocupa o trono?


Quando o criado se torna maior do que o Criador

A Bíblia apresenta uma inversão muito séria:

“Pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador.”

Romanos 1:25

Essa troca talvez seja uma das melhores definições de idolatria.

O criado ocupando o lugar do Criador.

Isso pode acontecer com coisas boas.

E talvez esse seja outro ponto importante.

Nem todo ídolo começa como algo ruim.

Família é boa.

Trabalho é bom.

Dinheiro é útil.

Animais fazem parte da criação de Deus.

Esporte pode proporcionar lazer e convivência.

Tecnologia pode facilitar nossa vida.

O problema surge quando uma coisa boa ocupa um lugar que nunca deveria ocupar.

Uma bênção também pode se transformar em ídolo.

Depende do lugar que damos a ela.


Aquilo que você não consegue entregar talvez já esteja dominando você

Existe uma pergunta desconfortável que considero importante:

O que você não conseguiria entregar a Deus?

Não estou falando necessariamente de abandonar tudo.

Estou falando de disposição interior.

Imagine que Deus tocasse exatamente naquela área da sua vida que você mais protege.

Seu dinheiro.

Seu relacionamento.

Seu sonho.

Sua imagem.

Sua posição.

Seu conforto.

Sua opinião.

Você conseguiria dizer:

“Senhor, isso é importante para mim, mas continua sendo menor do que o Senhor”?

Talvez uma das formas de identificar um ídolo seja observar aquilo cuja perda parece destruir completamente nossa identidade.

Quando alguma coisa se torna indispensável para que eu me sinta alguém, preciso prestar atenção.

Porque nossa identidade não deveria estar fundamentada no que possuímos.

Nem no que conquistamos.

Nem naquilo que outras pessoas pensam sobre nós.

Para o cristão, existe uma identidade anterior a todas essas coisas.


Este assunto vai muito além da religião

Foi justamente essa percepção que me levou a escrever Além das Aparências.

Meu propósito não é atacar religiões, zombar da fé alheia ou provocar polêmicas vazias.

Pelo contrário.

Quero lançar luz sobre comportamentos, objetos, ideias e sentimentos que, muitas vezes, são aceitos como normais ou inofensivos, mas que podem afastar nosso coração do verdadeiro Deus.

Por isso, ao longo do livro, não trato apenas de imagens ou rituais religiosos.

A conversa passa por santos populares, bens materiais, paixões esportivas, plantas, animais superestimados e até bebês que não respiram.

Assuntos diferentes.

Mas ligados por uma mesma pergunta:

Quando algo ultrapassa os limites do afeto, do respeito ou da utilidade e começa a ocupar o lugar da devoção?

Não pretendo responder a essa pergunta com ataques.

Mas também não quero respondê-la com omissão.

Se a Bíblia confronta alguma prática, precisamos ter coragem para conversar sobre ela.

Mesmo quando a conversa é desconfortável.


Nem tudo que emociona é espiritual

Vivemos também em um tempo de experiências intensas.

Vídeos emocionam.

Músicas emocionam.

Histórias emocionam.

Ambientes emocionam.

Mas emoção não é necessariamente evidência de verdade espiritual.

Podemos sentir algo profundamente e ainda assim estar errados.

Esse é outro motivo pelo qual discernimento é tão importante.

Nem tudo que traz conforto vem de Deus.

Nem tudo que parece espiritual é bíblico.

Nem tudo que possui linguagem religiosa conduz à verdade.

João aconselha:

“Não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”

1 João 4:1

Existe uma responsabilidade individual nisso.

Examinar.

Comparar.

Discernir.

Não aceitar automaticamente.

 


Quem está no trono?

Talvez essa seja a pergunta que resume todo o livro.

Quem está no trono do seu coração?

É uma pergunta simples.

Mas não é superficial.

Porque podemos responder rapidamente “Deus” e continuar vivendo como se outra coisa estivesse governando nossas escolhas.

Por isso precisamos observar nossos hábitos.

Nossas prioridades.

Nossos medos.

Aquilo que defendemos desesperadamente.

Aquilo que ocupa nossos pensamentos.

Aquilo que determina nossas decisões.

Aquilo que acreditamos que não podemos perder.

Muitas vezes, o coração revela sua devoção muito antes de nossa boca admitir.


Olhar além das aparências

O objetivo de Além das Aparências não é produzir medo de tudo.

Também não é transformar cada gosto ou objeto em pecado.

O objetivo é despertar discernimento.

Sem gritos.

Mas com verdades.

Algumas podem ser desconfortáveis.

Talvez você concorde com determinados capítulos.

Talvez discorde de outros.

Talvez encontre assuntos sobre os quais nunca havia parado para pensar.

E esse já seria um bom começo.

Porque uma fé madura não deveria ter medo de perguntas sinceras.

Muito menos de confrontar o próprio coração.

Afinal, de que adianta parecer piedoso por fora e estar distante do Senhor por dentro?

É possível defender símbolos religiosos e ainda assim possuir muitos ídolos escondidos.

É possível condenar a idolatria dos outros e não perceber aquilo que nós mesmos colocamos acima de Deus.

Por isso, antes de apontarmos para fora, precisamos olhar para dentro.

alÉm das aparÊncias (5)

Além das Aparências é justamente esse convite.

Um convite para examinar.

Questionar.

Discernir.

E retirar do trono tudo aquilo que nunca deveria ter ocupado aquele lugar.

Porque, no fim das contas, talvez o ídolo mais perigoso não seja aquele que conseguimos enxergar facilmente.

Talvez seja justamente aquele que aprendemos a chamar de normal.

 

Este artigo foi inspirado no primeiro capítulo do livro Além das Aparências — O que ocupa o trono do seu coração?

No livro, aprofundo essa reflexão e abordo outras formas de idolatria que, muitas vezes, passam despercebidas justamente porque parecem normais ou inofensivas.


Além das Aparências está disponível na Amazon e, neste momento, com preço promocional.

 



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