Nossas viagens eram sempre muito alegres. Amigos de longa data reunidos, namoradas e novos colegas sendo incorporados ao grupo. Risadas, brincadeiras, música alta e histórias que pareciam não ter fim.
Certa vez, fomos para um sítio em uma cidade próxima. Muita farra, muito álcool, mas sem exageros, porque no dia seguinte havíamos planejado visitar uma cachoeira.
Na manhã seguinte, acordamos cedo, tomamos café e partimos. A ideia era passar boa parte do dia por lá.
Os carros chegavam bem perto da cachoeira, mas o restante do trajeto precisava ser feito por uma trilha. Em determinado ponto, atravessamos uma pequena ponte sobre um riacho que corria em direção à queda d’água, cerca de trezentos metros à frente.
Eu e mais dois amigos decidimos ir nadando até lá.
Enquanto isso, o restante do pessoal seguiu pela trilha carregando as coisas para o almoço e logo se distanciou.
Nadávamos devagar, porque um dos amigos não estava muito confiante na água. Quando já estávamos próximos da cachoeira, eu havia acabado de sair da água e outro amigo estava saindo também, quando vimos o terceiro batendo os braços em desespero.
Ele estava se afogando.
Rapidamente, o amigo que ainda estava na água nadou até ele e tentou ajudá-lo da forma que sabia. Mas a tentativa não durou muito. Assim que me aproximei, ele nadou até a margem e começou a gritar por socorro. Estava completamente exausto, mas ainda gritava desesperadamente.
Quando cheguei perto, o rapaz já estava completamente desesperado. Tentava se apoiar em mim a qualquer custo. Toda vez que eu levantava a cabeça para respirar, ele me empurrava para baixo para conseguir subir e puxar ar.
Não demorou muito para existirem dois homens se afogando. O movimento se repetiu várias vezes. Eu tentava me afastar dele, mas era em vão. Chegou um momento em que eu já não lutava apenas pela vida dele, mas principalmente pela minha.
Eu queria me afastar, mas ele me puxava de volta.
Já praticamente sem forças, vi meus amigos se aproximando. Então estiquei o braço para cima na esperança de que alguém conseguisse me alcançar.
Assim, meu corpo afundou.
Quando minha mão já estava submersa, senti alguém me puxando. Era uma amiga.
Passei cerca de quinze minutos tentando recuperar o ar na beira do rio enquanto assimilava tudo o que havia acontecido.
O que deveria ser apenas um dia alegre terminou ali.
Um silêncio ensurdecedor tomou conta de todos nós.
Pegamos nossas coisas e fomos embora. Durante o restante do dia, quase ninguém falou.
Anos depois, viajei à praia com outro grupo de amigos.
A casa onde estávamos hospedados ficava bem próxima do mar. Pessoas legais, dias ensolarados, clima leve… tudo parecia perfeito.
Depois de um dia inteiro bebendo e se divertindo, dois rapazes resolveram entrar no mar para “curar o álcool” e continuar bebendo depois.
Algum tempo passou, e percebi que eles ainda não haviam voltado.
Então fui procurá-los.
Entrei no mar e olhei ao redor. Nada.
Até que, mais ao fundo, já muito longe da areia, vi dois homens visivelmente desesperados.
Pensei imediatamente:
— Será?
Comecei a nadar na direção deles. Quanto mais me aproximava, mais tinha certeza.
Eram os dois.
Quando me viram, gritaram:
— Graças a Deus! Ajuda a gente!
Naquele instante, percebi que um deles estava extremamente desesperado. O outro estava mais calmo, mas muito cansado.
Estávamos longe demais da praia para pedir socorro.
E então, em uma fração de segundos, a lembrança da cachoeira voltou inteira à minha mente.
Na hora, pensei:
“Se daquela vez eu me aproximei e quase morri, agora vou agir diferente.”
E foi exatamente o que fiz.
Mantive certa distância e comecei a orientá-los.
— Fiquem calmos. Se vocês se desesperarem, a situação vai piorar. Respirem fundo. Vocês querem sair daqui, não querem? Então façam exatamente o que eu disser.
Eles tentaram se acalmar.
Mas a correnteza nos empurrava cada vez mais para longe.
Então falei:
— Sei que vocês estão cansados, mas precisamos tentar nadar em direção à praia. Devagar. No “cachorrinho” mesmo.
Eles tentaram.
Mas estavam exaustos.
Paravam a todo momento e insistiam para que eu me aproximasse. Eu pensava: “Não mesmo!”. Mas também não dizia que não iria, porque percebia que aquilo poderia aumentar ainda mais o desespero deles.
Tentamos avançar mais algumas vezes, mas ainda estávamos longe da areia.
Foi quando comecei a pensar em um possível fim trágico para aquela situação.
Então, do nada, apareceu um surfista oferecendo ajuda.
Os dois se apoiaram nas laterais da prancha, e o surfista começou a levá-los devagar em direção à praia.
Fui nadando ao lado deles durante todo o percurso.
Quando finalmente chegamos à areia, os dois agradeceram a Deus, beijaram o chão e passaram alguns minutos tentando recuperar o fôlego.
O restante do dia foi silencioso e muito reflexivo.
Aprendizados
Nem toda ajuda exige proximidade
Na cachoeira, me aproximei com a intenção sincera de ajudar. Resultado: quase participei de uma tragédia.
No mar, ajudei de outra forma. Mantive distância, conservei a calma e usei a experiência dolorosa que tive no passado.
A intenção de ajudar pode ser boa, mas boas intenções também podem nos colocar em perigo.
Há pessoas tão desesperadas que, sem perceber, acabam afundando quem tenta salvá-las.
O desespero cega
O rapaz da cachoeira não queria me afogar.
Mas, no desespero, foi exatamente isso que aconteceu.
Existem situações em que o medo toma conta da racionalidade. A pessoa já não pensa com clareza, apenas reage tentando sobreviver.
E isso não acontece apenas dentro da água.
Quantas vezes o desespero também afoga relacionamentos, decisões e até nossa fé?
O melhor socorro
A experiência da cachoeira me ensinou algo importante: às vezes, o melhor socorro não é carregar alguém, mas orientá-lo.
Manter distância não significou falta de amor.
Pelo contrário.
Foi justamente aquela decisão que ajudou todos nós a permanecermos vivos.
Deus de detalhes
Qual a chance de aparecer um surfista exatamente ali, depois das ondas, no momento em que precisávamos?
Talvez exista uma explicação lógica.
Mas, sinceramente, a primeira coisa que me vem à mente é o cuidado de Deus.
E percebo esse cuidado até nas pequenas coisas do cotidiano.
Já aconteceu várias vezes de eu desejar silenciosamente alguma comida específica perto de chegar em casa. Quando chego, vejo que minha mãe estava preparando exatamente aquilo.
Outra vez, andando na rua com ela, falei brincando:
— Tá precisando trocar essa bolsa, hein?
Ela respondeu sorrindo:
— Aceito uma de presente.
Entramos no carro e pouco depois, paramos em uma mercearia. Enquanto ela desceu do carro, recebi uma mensagem da minha prima:.

Coincidência?
Talvez alguém diga que sim.
Eu prefiro enxergar cuidado.
Porque, às vezes, o agir de Deus não está apenas nos grandes milagres, mas também nos pequenos detalhes do dia a dia.
Basta observar.
Qua tal um teste rápido de visão.

Quando percebemos, já foi
A vida muda rápido demais.
Um momento de alegria entre amigos pode se transformar em desespero em questão de minutos.
Uma viagem divertida pode virar uma lembrança traumática.
E usando minha própria vida como exemplo: eu, que vivia como se nada pudesse me parar e tinha um ótimo preparo físico, fui parar em um leito de hospital de um dia para o outro.
Quem consegue prever o amanhã com precisão?
A ansiedade nos prende ao futuro.
A depressão nos prende ao passado.
Mas o presente…
O presente é um presente.
E, ao mesmo tempo, extremamente frágil.
Deus também trabalha nos bastidores
Quantas vezes pensei que Deus havia se esquecido de mim, mas depois percebi que Ele já estava agindo antes mesmo de eu notar?
O surfista no mar.
Os amigos chegando na cachoeira.
Livramentos silenciosos.
Cuidado invisível.
Muitas vezes, enquanto estamos tentando entender o problema, Deus já está movimentando pessoas, situações e respostas nos bastidores.
Mesmo quando não conseguimos enxergar.
Responsabilidade
A experiência da cachoeira quase terminou em tragédia.
Mas hoje agradeço a Deus por tê-la vivido.
Porque, anos depois, entendi que aquela dor havia me preparado para outro momento.
Se eu não tivesse passado por aquilo, provavelmente teria agido da mesma forma no mar — e o final dessa história poderia ter sido completamente diferente.
A experiência me ensinou.
Mas o aprendizado só fez diferença porque foi colocado em prática quando chegou a hora.
Talvez seja assim também em nossa vida.
Existem dores que não entendemos no presente, mas que mais tarde revelarão seu propósito. O problema é que aprendizados ignorados podem ferir não apenas a nós mesmos, mas também quem está ao nosso redor.
Porque Deus não desperdiça nada.
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