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A dor não precisa ser o fim

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Há uma frase atribuída a Sêneca que diz:

“As dificuldades fortalecem a mente, assim como o trabalho fortalece o corpo.”

Existem outras que possivelmente você já ouviu:

“Mar calmo nunca fez bom marinheiro.”

“Caia sete vezes, levante-se oito.”

“A adversidade nos apresenta a nós mesmos.”

Frases legais. Mas será que são verdadeiras?

Nem sempre.


Há sofrimentos que machucam. Também há acontecimentos que deixam marcas profundas. Algumas pessoas adoecem após uma experiência traumática. Outras conseguem se recuperar e seguir a vida.

Mas existe ainda uma terceira possibilidade:

Quem sofreu um momento difícil — trauma — não apenas volta a ser quem era antes, mas se transforma.

É o chamado crescimento pós-traumático.

Não significa que o trauma tenha sido bom.

A doença ou a perda não são situações boas.

Um episódio violento não se torna desejável somente porque quem sofreu aprendeu alguma coisa.

A dor continua sendo dor.

O que pode produzir crescimento não é propriamente aquilo que aconteceu, mas o que fazemos com aquilo que aconteceu.


Como musculação

Não é o peso parado no chão que o fortalece. É o esforço realizado para levantá-lo.

Com o trauma, pode acontecer algo parecido.

Diante de uma situação que muda nossa vida, podemos desenvolver recursos ou habilidades que talvez nunca tivéssemos utilizado.

Precisamos nos adaptar, reorganizar prioridades, pedir ajuda, rever pensamentos. Enfim, encontrar maneiras de continuar.

Às vezes, somente diante do buraco descobrimos que conseguimos pulá-lo.

E essa luta pode modificar profundamente a maneira como enxergamos a vida.


Cinco possibilidades

O crescimento pós-traumático costuma aparecer principalmente em cinco áreas.

1 — Valorização da vida

Depois de encarar de perto a fragilidade da existência, coisas que antes pareciam pequenas podem ganhar outra dimensão. 

O tempo passa a valer mais. Algumas preocupações diminuem.  Outras aparecem.

A pergunta deixa de ser apenas:

“O que eu quero?”

e pode passar a ser:

“O que realmente vale a pena?”

2 — Relacionamentos

Em situações difíceis, descobrimos quem permanece perto, quem estende a mão e o quanto dependemos uns dos outros.

A adversidade pode ensinar uma verdade que a rotina esconde:

ninguém atravessa a vida completamente sozinho.

3 — Força pessoal

Antes de enfrentar determinado problema, talvez você acreditasse que jamais conseguiria suportá-lo.

Então ele aconteceu.

Você sofreu. Caiu. Teve medo. Talvez tenha pensado que não conseguiria continuar.

Mas continuou.

Não porque descobriu ser invulnerável, mas porque percebeu que possuía habilidades que desconhecia.

O problema mostrou sua fragilidade, mas também revelou sua força.

4 — Novos caminhos

Planos são desmontados.

E aí existe algo interessante: quando algumas portas são fechadas à força, somos obrigados a olhar para lugares que antes nem percebíamos.

Redirecionamos caminhos e objetivos.

Podemos mudar até nossa visão de mundo.

5 — Mudanças existenciais e espirituais

Após determinadas experiências, algumas pessoas começam a fazer perguntas que talvez nunca tivessem feito seriamente:

  • Por que estou aqui?

  • O que realmente importa?

  • Existe algo maior do que eu?

  • Que sentido quero dar à minha vida?

Nesse momento, a pessoa deixa de olhar apenas para aquilo que perdeu e começa também a pensar sobre o que fará com a vida que permanece.


Na prática

Não serei hipócrita a ponto de romantizar o momento mais difícil da minha vida. Mas, depois dele, enxergar detalhes que antes passavam despercebidos virou uma constante.

Tomar banho sozinho, trocar de roupa sem ajuda, fazer minhas necessidades no vaso sanitário, não depender de ninguém para realizar a maioria das minhas vontades… Algumas coisas só deixaram de parecer pequenas quando deixaram de ser garantidas.

E não foram apenas as pequenas liberdades que ganharam outro valor. As pessoas também.

Aprendi a valorizar quem sempre estava por perto e nunca era notada — minha mãe é o maior exemplo disso. O AVC funcionou como um estranho selecionador de pessoas: algumas amizades se afastaram, outras se fortaleceram e novas surgiram de forma inesperada.

No auge do meu orgulho, nunca pensei que um dia dependeria do próximo para comer, tomar banho ou… É isso mesmo que você está pensando! Mas vivi, venci e estou aqui contando.

Em mim, orgulho e humildade descobriram que o espaço era pequeno demais para os dois.

Quando o orgulho caiu, a humildade se levantou — e trouxe com ela uma força que eu nem sabia que tinha.

A escrita surgiu neste momento: recuperação inicial, fala muito dificultada. 

Falo uma, duas, três vezes — e a pessoa não entende. Aí escrevo, e ela compreende.

Aos poucos, a escrita tornou-se a maneira preferencial de me comunicar. 

Depois veio a ideia: vou escrever um livro para contar minha experiência e, assim, ajudar outros. Desde então, escrever faz parte da minha rotina.

Questionamentos como “Existe algo maior, além dos meus próprios objetivos?” e “O que farei com a nova chance que recebi?” são frequentes desde que deixei o hospital. Minha aproximação da fé pode explicar isso.


Não é apenas resiliência

Existe uma diferença importante entre resiliência e crescimento pós-traumático.

Imagine uma árvore curvada por uma tempestade.

Se, depois da tempestade, ela consegue retornar à posição em que estava, podemos pensar em resiliência.

O crescimento pós-traumático vai além.

A tempestade passou, mas algo mudou.

A pessoa não simplesmente retornou ao ponto anterior. Desenvolveu novas perspectivas, novos recursos ou uma nova compreensão da própria existência.

Não voltou exatamente para onde estava.

Passou a crescer em outra direção.


O trauma e a história narrada

Há ainda um aspecto importante nesse processo: a maneira como contamos o que aconteceu conosco.

O fato não muda.

Mas a maneira como ele ocupa espaço dentro da nossa história pode mudar.

Podemos olhar para uma experiência exclusivamente como o capítulo que destruiu nossa vida.

Ou, sem negar absolutamente nada da dor, podemos começar a enxergá-la apenas como um capítulo de uma história maior.

Isso exige tempo, elaboração e outras pessoas.

O apoio social pode ser fundamental justamente porque, enquanto contamos nossa história, também começamos a organizá-la.

Pouco a pouco, aquilo que parecia apenas caos pode encontrar um lugar dentro da nossa biografia.

Não significa justificar o sofrimento.

Muito menos agradecer por uma tragédia.

Significa questionar:

“Já que isso aconteceu, o que farei agora?”


Todo sofrimento fortalece?

Talvez essa seja a questão mais importante quando falamos sobre crescimento pós-traumático.

Nem todo sofrimento fortalece.

Um peso adequado pode fortalecer um músculo.

Mas um peso em excesso pode lesioná-lo.

Com a mente não é tão diferente.

Existem acontecimentos capazes de produzir consequências psicológicas profundas. 

Existem pessoas que precisarão de ajuda para atravessá-los. E ninguém deveria sentir culpa por não conseguir encontrar imediatamente algum aprendizado em sua dor.

Crescimento pós-traumático não é obrigação.

É possibilidade.

Por isso, talvez a conhecida frase “o que não me mata me fortalece” precise de uma pequena correção.

Nem tudo que não nos mata nos fortalece. Algumas coisas apenas deixam cicatrizes. Nada mais!

Mas, em determinadas circunstâncias, a luta para superar aquilo que nos feriu pode desenvolver forças, abrir perspectivas e modificar nossa maneira de viver.

O trauma pode escrever algumas linhas da nossa história.


Mas não precisa escrever todo o restante dela.


Quer saber mais?

Se quiser se aprofundar no tema, recomendo o vídeo “Crescimento pós-traumático: como gerar uma mudança positiva”, do psiquiatra Daniel Martins de Barros. De forma simples e objetiva, ele explica o conceito, as principais áreas de crescimento e alguns fatores que podem favorecer esse processo.

Assista ao vídeo:
Crescimento pós-traumático — Daniel Martins de Barros


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