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Autoridade natural

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Ainda estava no leito hospitalar quando enfrentei um dos momentos mais dramáticos da minha recuperação. Superei uma fase que foi mais difícil para aqueles que me acompanhavam do que para mim.

Queria retomar as rédeas da minha vida. Ter a possibilidade de respirar sem nenhum tipo de auxílio externo envolvia isso.

A cirurgia de traqueostomia foi necessária para ajudar o ar a chegar aos meus pulmões. Um pequeno corte na garganta e um tubinho metálico ligando o ambiente externo à traqueia.

Assim, uma nova passagem de ar acontecia e facilitava a retirada de secreções dos pulmões.

A operação ajudou muito na minha pior fase, mas a traqueo demandava cuidados diários. Precisava ser higienizada, e a secreção retirada todos os dias. A limpeza não doía nada, mas a retirada diária da secreção incomodava bastante.

Era a hora menos esperada do dia: a chegada do fisioterapeuta respiratório para realizar o procedimento.

Eu pensava:

— Tá chegando a hora da “gastura”.

Até porque, só de assistir já incomodava também.

Chegou!

O responsável, muito alegre, tentava amenizar a situação com piadas e assuntos aleatórios. Geralmente, dois técnicos de enfermagem o acompanhavam.

Secreção retirada.

Ufa! Agora vem a parte fácil, pensei.

Durante a limpeza, uma das técnicas disse à minha mãe, que acompanhava tudo atentamente de longe:

— Pode chegar mais perto, dona Nadir. É bom que a senhora aprende para fazer com ele em casa.

Minha mãe respondeu com naturalidade, mas cheia de autoridade e fé:

— Não vou aprender isso. Meu filho não vai para casa com a traqueo.

— Tem certeza? — a moça perguntou.

— Tenho! — minha mãe respondeu.

Poucos dias depois desse episódio, fiz um teste para ver se meus pulmões estavam “dando conta do recado”.

Pulmões plenos! Autorizada a retirada cirúrgica da traqueo. Cirurgia feita.

Fui transferido para outro hospital, que oferecia uma fisioterapia mais intensa. Fiquei mais quatro meses e meio nesse hospital, recebi alta e fui para casa respirando normalmente.


Aprendizados

Busca da autonomia

Glória a Deus pela traqueostomia. Ela ajudou em um momento delicado. 

Logo após o AVC, Precisei da ajuda de aparelhos, profissionais da saúde, de muitas pessoas, mas retomar as rédeas da minha vida e superar aquela dependência clínica era necessário.

Respirar por mim mesmo era um avanço na minha recuperação — ou, pelo menos, eu achava que era.

Não me tornei um homem de dignidade diminuída por receber tal cuidado. Pelo contrário: isso me ajudou a sobreviver.

Essa fase fez parte do meu processo de evolução. 

Em outras palavras: considero-me um Daniel melhor do que o Daniel de antes.

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O momento difícil não precisa ser triste

Todos os dias eu passava por aquele momento incômodo: a retirada da secreção — de forma clara, tirar o catarro dos pulmões.

Aquilo era delicado, e o fisioterapeuta sabia disso. Por isso, tentava amenizá-lo e transformar aqueles minutinhos em momentos mais leves.

Existem dores que não podemos evitar, mas a maneira como atravessamos o dia mau pode mudar a percepção da fase difícil.

Uma palavra de bênção, uma presença que transforma o ambiente ou uma simples conversa não removem o problema de forma simples e imediata. Contudo, podem ajudar a suportá-lo.


A fé não elimina a prudência

Minha mãe não ignorava o procedimento. Além dos cuidados que a situação exigia, dona Nadir ficava atenta, pois é uma mãe superprotetora — e isso não é segredo. 

Caso precisasse proteger a prole, ela estava ali, a postos.

A sugestão da técnica para que minha mãe chegasse perto e aprendesse foi profissional e prática, porque facilitaria nossa rotina pós-internação.

Mas a resposta firme e sem arrogância demonstrou uma fé espontânea cheia de autoridade.

A fé verdadeira não ignora a realidade; apenas não aceita a gravidade do momento como sentença definitiva.


Chamar à existência

Encontrei alguns embasamentos bíblicos para os dizeres de dona Nadir. Até pouco tempo atrás, eu pensava que aquilo era apenas uma fé inabalável. Hoje, percebo que também havia uma declaração carregada de confiança em Deus.

Provérbios 18:21 diz:

“A morte e a vida estão no poder da língua…”

As palavras dela não foram apenas sons. Carregavam amor, autoridade e visão.

Em 2 Coríntios 4:13, lemos:

“Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos.”

Ela não falou por impulso. Falou porque cria. A fala foi uma manifestação natural daquilo que estava no coração.

E em Romanos 4:17 :

“…chama à existência coisas que não existem, como se existissem.”

A fé se apoia no único Deus que vê antes de nós. Minha mãe declarou, com fé, que aquela situação não permaneceria.

Marcos 11:23 também fala sobre crer sem duvidar.

A declaração de fé, sem arrogância e sem negação da realidade, teve um final feliz.

A fé pode não transformar a situação imediatamente, mas revela em que nossa confiança está firmada.


O processo também é resposta

Ir para casa sem a traqueo precisou cumprir algumas etapas: teste respiratório, cirurgia de retirada, transferência de hospital e meses de recuperação até a alta.

A resposta não veio de forma imediata, mas veio.

Teve fé, mas também teve teste. Teve declaração, mas também teve cirurgia. Teve esperança, mas também teve transferência e fisioterapia.

O milagre foi construído em cada etapa. O que nasceu como esperança se tornou realidade.

Resultado

Não só voltei para casa respirando normalmente, como também voltei a treinar, dirigir e estudar.

Além de cumprir aquilo que minha mãe declarou pela fé, Deus fez mais — muito mais.

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A autoridade natural da fé não grita. Ela apenas descansa em Deus antes de o resultado aparecer.


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